quarta-feira, 22 de junho de 2016

IMPRESSIONISMO

AULA 30/05

INTRODUÇÃO

Durante a segunda metade do século XIX, as revoluções burguesas triunfaram em grande parte do mundo ocidental, e impuseram-se sistemas de governo mais democráticos. Além das mudanças de ordem política, houve transformações decisivas na percepção do mundo e nas relações humanas.

A revolução industrial, iniciada em meados do século XVIII na Inglaterra, causou profundas transformações nos modos de vida. O desenvolvimento industrial afetou a economia, ao mesmo tempo em que ocorria um intenso crescimento demográfico. Os meios de transporte e de comunicação (trem, barco a vapor, telégrafo) aperfeiçoaram-se de maneira assombrosa.

Claude Monet - Mulher com sombrinha
1875 - 100 x 82 cm - Óleo sobre tela
O crescimento desmedido das cidades resultou da industrialização, e a multiplicação de notícias e imagens surgiu com o fortalecimento da imprensa e a invenção da fotografia.

Em Paris, em 1874, um grupo de pintores independentes – entre eles Claude Monet, Pierre-Auguste Renoir, Alfred Sisley, Edgar Degas, Paul Cézanne, Camille Pissarro e Berthe Morisot – organizou a primeira exposição do grupo no estúdio do fotógrafo Félix Nadar e no café Guerbois (onde os pintores se reuniam). Ao ver a obra de Claude Monet, “Impressão, Sol Nascente”, Louis Leroy escreve e publica na revista Le Charivari uma crítica à tela de Claude Monet e também à arte impressionista. Começou sarcasticamente a chamar esses artistas de impressionistas, os artistas, no entanto assumiram esta nomenclatura, porém não com o sentido pejorativo dado por Louis Leroy.

Daí em diante recebe o nome de impressionismo a corrente artística que surgiu na França, principalmente na pintura, por volta do ano de 1870. Esse movimento, de cunho anti-academicista, propôs o abandono das técnicas e temas tradicionais, saindo dos ateliês iluminados artificialmente para registrar ao ar livre a natureza, tal como ela se mostrava aos seus olhos, segundo eles, como uma soma de cores fundidas na atmosfera. Assim, o nome impressionismo não foi casual.

O impressionismo não foi um grupo homogênio, e os termos “impressionista” e “impressionismo” difundiram-se a partir da segunda mostra coletiva desse grupo de artistas independentes, em 1876.

Apesar de criticados, recusados nos Salões oficiais e incompreendidos pela Academia de Arte (que não conseguia compreender e aceitar suas obras, nos quais estranhavam a ausência do trato acadêmico e dos temas tradicionais), as exposições de suas obras criavam uma expectativa muito grande nos círculos intelectuais de Paris.

São duas as fontes mais importantes do impressionismo: a fotografia e as gravuras japonesas (ukiyo-e). A primeira alcançou o auge em fins do século XIX e se revelava o método ideal de captação de um determinado momento, o que era uma preocupação principalmente para os impressionistas. As segundas, introduzidas na França com a reabertura dos portos japoneses ao Ocidente, propunham uma temática urbana de acontecimentos cotidianos, realizados em pinturas planas, sem perspectiva.
Os representantes mais importantes do Impressionismo na Europa foram: Edouard Manet (1832-1883), Claude Monet (1840-1926), Pierre-Auguste Renoir(1841-1919), Edgar Degas (1834-1917), Camille Pissarro (1830-1903) e Alfred Sisley (1839-1899). No restante da Europa isso ocorreu posteriormente. Ao impressionismo seguiram-se vários movimentos, representados por pintores igualmente importantes e com teorias muito pessoais, como o pós-impressionismo (Van Gogh, Cézanne), o simbolismo (Moreau, Redon), e o fauvismo (Matisse, Vlaminck, Derain, entre outros) e o retorno ao princípio, ou seja, à arte primitiva (Gauguin) que era também considerada um tipo de fauvismo. Todos apostavam na pureza cromática, sem divisões de luz (em muitos casos refere-se também à utilização de cores puras para representar a luz).

NOTA
A cultura japonesa era desconhecida no Ocidente na época dos impressionistas. A influência de suas obras artísticas teve início em meados do século XIX com exposições que aconteceram na Europa, em especial na Inglaterra e na França. As gravuras japonesas foram muito admiradas por impressionistas como Manet e Degas e tiveram grande impacto em suas obras. Mais tarde, elas também influenciaram o trabalho de Van Gogh, artistas pós-impressionistas. Essa influência da arte japonesa no trabalho de artistas ocidentais recebeu o nome de japonismo.

MANET E AS ORIGENS DO IMPRESSIONISMO

A origem do Impressionismo data dos anos de 1860, quando, em Paris, vários amigos que eram pintores passaram a retratar a realidade que os rodeava a partir das sensações visuais, traduzidas na tela por pinceladas rápidas.

Eles abriram mão de retratar grandes temas históricos e mitológicos, impostos pela pintura oficial, mais distantes do cotidiano do artista e do espectador/consumidor de arte e passaram a retratar a vida das ruas e dos lugares de lazer – bares, cafés, cabarés -, tanto na capital quanto no interior. Os artistas pintavam os jardins de suas casas e os caminhos e paisagens dos arredores delas.

Sem seguir a “cartilha” da pintura oficial, eles foram marginalizados pela estrutura artista estatal francesa, que selecionava as obras a ser admitidas nos salões.

A desconexão desses artistas com a arte oficial e as afinidades que mantinham entre si os agruparam em torno de Édouard Manet, o mais velho deles. Foi Manet quem empreendeu o esforço inicial para diminuir a importância dos temas nas pinturas e a valorização da pintura em si, por seus efeitos. É o início do que ficou conhecido como “a arte pela arte”.

De sólida formação cultura e fina ironia, Édouard Manet revelou as contradições que pesavam sobre a suposta valorização artista das pinturas enviadas aos salões, sempre dependentes de questões morais e da rigidez dos temas ditados pelo sistema. Em 1863, sua tela Almoço na relva foi rejeitada pelo júri do Salão Oficial, classificada como obcena, tornando-se a peça simbólica do Salão dos Rejeitados.

A razão da recusa da tela pela Academia teve fundo moral: Manet retratara uma dupla de aristocratas, usando roupas contemporâneas, fazendo um piquenique na relva do parque ao lado de uma mulher nua. Ao fundo, outra moçam, em trajes íntimos (um vestido de se usar por baixo do vestido de passeio social) banhava-se no lago. Até então, a representação da nudez em uma obra de arte só era admitida quando representada em um tempo e espaços distantes e/ou mostrando personagens abstratos como Afrodite – a deusa da beleza, Hércules – herói da mitologia grega ou Adão e Eva no paraíso.  No caso da pintura de Manet a imagem mostrava pessoas reais da sociedade daquele período, ainda que os corpos estivessem cobertos.

A própria escultura deste período também pode ser considerada impressionista, já que, de fato, os escultores tentaram uma nova maneira de plasmar a realidade. É o tempo das esculturas inacabadas de Rodin, inspiradas em Michelangelo, e dos esboços dinâmicos de Carpeaux, com resquícios do rococó. Já não interessava a superfície polida e transparente das ninfas delicadas de Antonio Canova (artista neoclássico). Tratava-se de desnudar o coração da pedra para demonstrar o trabalho do artista, novo personagem da estatuária.

NOTA

O Salão da Real Academia Francesa de Pintura e Escultura era a única exposição oficial da França. Em 1863, para entender aos pedidos dos artistas que tiveram suas obras rejeitadas pelo Salão Oficial, Napoleão III mandou organizar uma exposição paralela, em Paris, intitulada Salão dos Rejeitados. Essa mostra passou a concorrer com a do Salão oficial e tornou-se um marco do Impressionismo.

PINTURA

O que mais interessou aos pintores impressionistas foi a captação momentânea da luz na atmosfera e sua influência nas cores. Os artistas desse movimento produziram obras a partir da impressão visual imediata do cenário ou objeto observado, em outras palavras, queriam representam a real impressão do olho ao observar um objeto ou cena real, estando diante dela, e não inventando o ambiente em ateliê. Procuravam pintar ao ar livre, sem fazer rascunhos – pintavam diretamente na tela, com pinceladas soltas e cores puras, misturando as cores na própria tela e não as preparando previamente. Eram conduzidos pela percepção imediata, intuição, sentidos e resultados que a obra apresentava na medida em que era elaborada. Já não existiam a linha, ou os contornos, nem tampouco a perspectiva, a não ser a que lhes fornecia a disposição da luz. A poucos centímetros da tela, um quadro impressionista é visto como um amontoado de manchas de tinta, ao passo que à distância as cores se organizam opticamente e criam formas e efeitos luminosos.

Os primeiros estudos sobre a incidência da luz nas cores foram realizados pelo pintor Corot, modelo para muitos impressionistas e mestres da escola de Barbizon. Tentando plasmar as cores ao natural, os impressionistas começaram a trabalhar ao ar livre para captarem a luz e as cores exatamente como elas se apresentam na realidade. A temática de seus quadros se aproximava mais das cenas urbanas em parques e praças do que das paisagens, embora cada pintor tivesse seus motivos (temas) prediletos.

Reunidos em Argenteuil (região da França), Manet, Sisley, Pissarro e Monet fizeram experiências principalmente com a representação da natureza por meio das cores e da luz. Logo chegaram à expressão máxima do pictórico (a cor) diante do linear (o desenho). Como nunca, a luz tornou-se protagonista e atingiu uma solidez ainda maior do que a que se vê nos quadros de Velázquez (pintor barroco), nas pinceladas truncadas e soltas de Hals ou no colorido de Giorgione, reinterpretada de modo inteiramente antiacadêmica.


Mais tarde surgiriam os chamados pós-impressionistas, que não formaram nenhum grupo concreto e cujos trabalhos eram bem mais diferenciados: Cézanne e seu estudo dos volumes e formas puras (considerado um pré-cubista); Seurat, com seu cromatismo científico (pontilhismo); Gauguin, cujos estudos sobre a cor precederam os fauvistas; e Van Gogh, que introduziu o valor das cores como força expressiva do artista.

O líder do grupo fauvista foi Matisse, que partiu do estudo dos impressionistas e pós-impressionistas, de quem herdou sua obsessão pela cor. Junto com ele, Vlaminck e Derain, o primeiro totalmente independente e fascinado pela obra de Van Gogh, e o segundo a meio caminho entre os simbolistas e o realismo dos anos 20. O grupo se completava com os pintores Dufy, Marquet, Manguin, Van Dongen e um Braque pré-cubista. Esse movimento chegou ao ápice em 1907.

ESCULTURA

A exemplo da pintura, a escultura do fim do século XIX tentou renovar totalmente sua linguagem. Foram três os conceitos básicos dessa nova estatuária: a fusão da luz e das sombras, a ambição de obter estátuas visíveis a partir do maior número possível de ângulos e a obra inacabadacomo exemplo ideal do processo criativo do artista. Os temas da escultura impressionista, como de resto da pintura, surgiram do ambiente cotidiano e da literatura clássica em voga na época.

Rodin e Hildebrand foram, em parte, os responsáveis por essa nova estatuária. O primeiro com sua obra e o segundo, com suas teorias. Igualmente importantes foram as contribuições do escultor Carpeaux, que retomou a vivacidade e a opulência do estilo rococó, mas distribuindo com habilidade luzes e sombras. A aceitação de seus esboços pelo público animou Carpeaux a deixar sem polimento a superfície de suas obras, o que foi depois fundamental para as esculturas inacabadas de Rodin.
Auguste Rodin - O Pensador - 1904
 Rodin considerava O Escravo, que Michelangelo não terminou, a obra em que a ação do escultor melhor se refletia. Por isso achou tão interessantes os esboços de Carpeaux, começando então a exibir obras inacabadas. Outros escultores foram Dalou Meunier, a quem se deve a revalorização dos temas populares. Operários, camponeses, mulheres realizando atividades domésticas, todos faziam parte do novo álbum de personagens da nova estética.

RESUMO

1- Nas últimas décadas do século XIX, vários acontecimentos mudaram o rumo da sociedade:

-a Revolução Industrial estabeleceu novas relações sociais, econômicas e culturais na Europa;
-a tecnologia emergente trouxe importantes reflexões acerca da produção artística desse período;
-os impressionistas fizeram sua primeira exposição propondo um rompimento com a estética da Academia de Arte e suas regras, rejeitando as exigências dos Salões oficiais e apresentando uma arte inovadora que se preocupava em captar os efeitos da luz e produzia temas cotidianos corriqueiros;
-Paris tornou-se o centro das artes; nasceu o debate sobre a criação e o mercado de arte de colecionadores.

2- O aparecimento do Impressionismo foi acompanhado por uma série de circunstâncias:

-Reação contra os conteúdos da pintura dos salões oficiais, que defendiam a aplicação de uma espécie de receituário histórico-artístico (técnicas e modos de produção já consagrados e tradicionais), em detrimento da priorização dos valores intrínsecos da expressão artística (a livre expressão, a criatividade, os efeitos visuais dos materiais utilizados dentre outros)

-Consciência da fugacidade da vida modernaaparentemente um contínuo devir (expectativa de constante pelo futuro) dominado por sensações.

-Experiências ópticas diversas, que os pintores usaram intuitivamente, como os efeitos que produzem determinadas cores ao lado de outras. Essa mistura de cores, quando contemplada a distância, pode criar a ilusão de volume ou de ligeiro movimento na tela.

-Inovações técnicas nos materiais usados pelos pintores, como novos tecidos industriais para as telas e tubos de tintas portáteis, com os pigmentos de cor prontos para uso, sem que o artista precisasse prepará-los. Além de cores mais vivas, a tinta industrializada permitiu mais materialidade na superfície da pintura, que ganhou grossas camadas.
-Com a invenção da fotografia e o amadurecimento das experiências em virtude da nova técnica pictórica, ampliou-se a possibilidade de vários enquadramentos em um mesmo plano, o que pôs em xeque a pintura tradicional.

- A chegada de estampas japonesas à Europa difundiu um olhar muito diferente do ocidental para a perspectiva – nessas imagens, o espaço é plano e há um gosto bastante diferente para as cores vivas e luminosas. É importante notar que o japonismo não deve ser considerado uma mera cópia da arte japonesa, mas uma fusão entre as culturas oriental e ocidental que possibilitou a evolução nas artes do final do século XIX e começo do século XX, ao ser utilizado pelos artistas como um meio de reagir contra as imposições acadêmicas.

terça-feira, 17 de maio de 2016

BELLE ÉPOQUE


AULA 16/05

Jean Béraud

A Belle Époque é normalmente compreendida como um momento na trajetória histórica francesa que teve seu início no final do século XIX, mais ou menos por volta de 1880, e se estendeu até a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Mas, na verdade, não é possível demarcar tão rigorosamente seus limites, uma vez que ela é mais um estado espiritual do que algo mais preciso e concreto.
Jean Béraud



No Brasil, por exemplo, este período tem início em 1889, com a Proclamação da República, e vai até 1922, quando explode o Movimento Modernista, com a realização da Semana da Arte Moderna na cidade de São Paulo. A Belle Époque brasileira é, no entanto, instaurada lentamente no país, por meio de uma breve introdução que começa em meados de 1880, e depois ainda sobrevive até 1925, sendo aos poucos minada por novos movimentos culturais.



Esta era é até hoje relembrada como uma época de florescimento total do belo, de transformações, avanços e paz entre o território francês, onde este movimento se centralizou, e os países europeus mais próximos. Surgem novas descobertas e tecnologias, e o cenário cultural fervilha com o aparecimento dos cabarés, do cancan, do cinema. A face artística é subvertida com o nascimento do Impressionismo e da Art Nouveau. Em outras terras a arte e a arquitetura nascentes neste momento são conhecidas como obras de estilo ‘Belle Époque’.


No Brasil a ligação com a França é profunda nesta fase da História. Entre os membros da elite brasileira, era inconcebível não ir a Paris ao menos uma vez por ano, para estar sempre a par das mais recentes inovações. Em meados do século XIX, cinco importantes mostras internacionais organizadas na cidade-luz indicaram as novas inclinações estéticas aos artistas de todo o mundo.
Uma delas, a de 1855, revelou uma oposição entre os seguidores do Neoclassicismo de Dominique Ingres e os do Romantismo de Eugéne Delacroix. Este saiu vitorioso do embate, estendendo seu triunfo ao movimento cultural por ele representado. Nesta mesma exposição o artista Gustave Courbet, ao ver seus trabalhos rejeitados, montou próximo ao salão das obras expostas seu Pavilhão do Realismo. Em 1867 seus esforços são recompensados, pois neste ano ele e sua obra tornam-se o centro das atenções, com o êxito da escola realista.

Ao mesmo tempo, este período testemunhou a escalada do socialismo organizado e dos militantes operários. Os confrontos criados por este novo cenário, somados às controvérsias políticas então vigentes, geraram um posicionamento dos franceses entre a esquerda e a direita. Mesmo com esta tensão no ar, o contexto desta época é lembrado como a era dourada, subitamente abalada pelo início da Primeira Guerra Mundial.
Mudanças profundas marcam o cotidiano da Belle Époque, provocadas pelo aparecimento de novas tecnologias como o telefone, o telégrafo sem fio, o cinema, a bicicleta, o automóvel, o avião, entre outras invenções. Paris se torna o centro cultural mundial, com seus cafés-concertos, balés, operetas, livrarias, teatros, boulevards e a alta costura inspirando e influenciando várias regiões do Planeta. Toda a elite intelectual consome avidamente os livros de Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Zola, Anatole France e Balzac, uma referência existencial para os que estavam sintonizados com os ares da Belle Époque.

Fontes: http://www.infoescola.com/artes/belle-epoque/

domingo, 17 de abril de 2016

BARROCO



AULA 17/04

INTRODUÇÃO

Caravaggio - Descida da Cruz - Óleo s Tela - 1608
Barroco (palavra cujo significado tanto pode ser pérola irregular quanto mau gosto) é o período da arte que vai de 1600 a 1780 e se caracteriza pela monumentalidade das dimensões, opulência das formas e excesso de ornamentação. É o estilo da grandiloqüência e do exagero, da teatralidade e da dramaticidade. Essas características todas podem ser explicadas pelo fato de o barroco ter sido um tipo de expressão de cunho propagandista.

O absolutismo monárquico e a Igreja da Contra-Reforma utilizaram-no como manifestação de grandeza. Nascido em Roma a partir das formas do cinquecento renascentista, logo se 
diversificou em vários estilos paralelos, à medida que cada país europeu o adotava e o adaptava à sua própria idiossincrasia (modo distinto de sentir e interpretar). Nações protestantes como a Inglaterra, por exemplo, criaram uma versão mais moderada do estilo, com edifícios de fachadas bem menos carregadas que as italianas.


Peter Paul Rubens- The Fall of Phaeton - 1604 - 1605
Um dos traços fundamentais desse vasto período é que durante seu apogeu as artes plásticas conseguiram uma integração total. A arquitetura, monumental, com exuberantes fachadas de mármore e ornatos de gesso, ou as obras de Borromini, caracterizadas pela projeção tridimensional de planos côncavos e convexos, serviram de palco ideal para as pinturas apoteóticas das abóbadas e as dramáticas esculturas de mármore branco que decoravam os interiores.

PINTURA 

Peter Paul Rubens
As obras pictóricas barrocas, liberadas da geometria axial¹ dos quadros do renascimento, caracterizaram-se pela composição radial, em que os personagens e os objetos pareciam disparar de um ponto central para as diagonais. As formas são voluptuosas e exageradas. As figuras adquirem expressividade e, envoltas em tecidos mórbidos, abraçam-se umas às outras, em atitudes patéticas e dramáticas, às vezes até impossíveis.

As diagonais se cruzam indefinidamente em planos diferentes, criando a sensação de que os personagens vão escapar do quadro. Os contornos se esfumam em rápidas pinceladas. O espaço é criado pelo contraste extremo do claro-escuro. Os temas favoritos devem ser procurados na Bíblia ou na mitologia greco-romana. É a época do hedonismo² de Rubens, com seus quadros alegóricos de mulheres rechonchudas, lutando entre robustos guerreiros nus e expressivas feras.

Conversão de São Paulo - Caravaggio
Também é a época dos sublimes retratos de Velázquez, do realismo de Murillo, do naturalismo de Caravaggio, da apoteose de Tiepolo, da dramaticidade de Rembrandt. Em suma, o barroco produziu grandes mestres que, embora trabalhando de acordo com fórmulas diferentes e buscando efeitos diferentes, tinham um ponto em comum: libertar-se da simetria e das composições geométricas, em favor da expressividade e do movimento.


¹Axial é um adjetivo de dois gêneros que qualifica algo relativo ao eixo ou que tem forma de eixo. Simetria axial é uma expressão do contexto da geometria que indica a correspondência entre dois determinados pontos em que o segmento que os une encontra uma reta fixa em ângulo reto no seu meio. Radial e axial são palavras usadas no contexto da Física. Uma força axial se estende segundo o eixo longitudinal de uma barra, enquanto que a força radial se verifica de um ponto central para fora.

²Hedonismo consiste em uma doutrina moral em que a busca pelo prazer (no sentido de satisfação e bem estar) é o único propósito da vida, ou seja, o fim último de qualquer ação, é o prazer, o sentir-se bem. O termo aponta para uma vida que evita qualquer forma de dor, sofrimento ou desconforto a qualquer custo. A palavra hedonismo vem do grego hedonikos, que significa "prazeroso", já que hedon significa prazer. Como uma filosofia, o hedonismo surgiu na Grécia e teve Epicuro e Aristipo de Cirene como alguns dos nomes mais importantes.


Rembrant - 1627 - Parábola do Homem Rico

Caravaggio - Cabeça de Medusa
ESCULTURA 

Bernini - Ecstasy de Sta Teresa
A estatuária barroca desempenhou um papel muito importante na decoração arquitetônica, tanto na interior quanto na exterior. As esculturas mais representativas desse estilo, e as que inauguraram o ciclo, foram as de Bernini, arquiteto e escultor praticamente exclusivo do Vaticano na época do papa Urbano VIII. Suas obras, ao contrário das esculturas equilibradas e axiais do renascimento, parecem estar posando vivas sobre a base de pedra, prestes a sair dali a qualquer momento.
Os materiais que melhor expressavam essas sensações eram o mármore branco e o bronze. Os rostos sofrem, se esforçam, apertando os lábios, ou abrindo-os como para dar um gemido. Os músculos estão em tensão, e as veias parecem pulsar sob a pele. Até os cabelos e barbas, desgrenhados, plasmam (formam, modelam) um estado de espírito. Os corpos querem se despojar de sedas ao mesmo tempo pesadas e mórbidas. Em toda parte, as esculturas do barroco eram os novos cidadãos.

Aqui e ali multiplicavam-se anjos e arcanjos, santos e virgens, deuses pagãos e heróis míticos, agitando-se nas águas das fontes e surgindo de seus nichos nas fachadas, quando não sustentavam uma viga ou faziam parte dos altares.Entretanto, essa total dependência da arquitetura não as tornou menos importantes. Conseguiu-se um equilíbrio no qual o edifício era o quadro e elas seu complemento, sem que um elemento tivesse mais peso do que o outro.

ARQUITETURA 



Na arquitetura barroca, os conceitos de volume e simetria vigentes no renascimento são substituídos pelo dinamismo e pela teatralidade. O produto desse novo modo de desenhar os espaços é uma edificação de proporções ciclópicas (gigantes), em que mais do que a exatidão da geometria prevalece a superposição de planos e volumes, um recurso que tende a produzir diferentes efeitos visuais, tanto nas fachadas quanto no desenho dos interiores.



Quanto à arquitetura sacra, as proporções antropomórficas (formas humanas) das colunas renascentistas foram duplicadas, para poder percorrer sem interrupção as novas fachadas de pavimento duplo, segundo o modelo da construção de IL Gesù (Igreja de Jesus), em Roma, primeira igreja da Contra-Reforma e igreja "mãe" da Companhia de Jesus. A partir de 1630, começam a proliferar as plantas elípticas e ovaladas de dimensões menores.



Isso logo se transformaria numa das características arquitetônicas típicas do barroco. São as igrejas de Maderno e Borromini, nas quais as formas arredondadas substituíram as angulosas e as paredes parecem se curvar de dentro para fora e vice-versa, numa sucessão côncava e convexa, dotando o conjunto de um forte dinamismo.

Quanto à arquitetura palaciana, o palácio barroco era construído em três pavimentos. Os palácios, em vez de se concentrarem num só bloco cúbico, como os renascentistas, parecem estender-se sem limites sobre a paisagem, em várias alas, numa repetição interminável de colunas e janelas. A edificação mais representativa dessa época é o de Versalhes, manifestação messiânica das ambições absolutistas de Luís XIV da França, o Rei Sol, que pretendia, com essa obra, reunir ao seu redor - para desse modo debilitá-los - todos os nobres poderosos das cortes de seu país.




ROCOCÓ

ROCOCÓ

INTRODUÇÃO ROCOCÓ

Jean-Honoré Fragonard - Blind Man’s Buff
O rococó é um estilo que se desenvolve principalmente no sul da Alemanha, Áustria e França, entre 1730 e 1780. O nome vem do francês rocaille (concha), um dos elementos decorativos mais característicos desse estilo. Para muitos teóricos, o rococó nada mais é do que a coroação do barroco. Porém, embora à primeira vista suas formas lembrem maneirismos ainda mais intrincados do que os do período anterior, sua filosofia é bem diferente.

   Existe uma alegria na decoração carregada, na teatralidade, na refinada artificialidade dos detalhes, mas sem a dramaticidade pesada nem a religiosidade do barroco. Tenta-se, pelo exagero, se comemorar a alegria de viver, um espírito que se reflete inclusive nas obras sacras, em que o amor de Deus pelo homem assume agora a forma de uma infinidade de anjinhos rechonchudos. Tudo é mais leve, como a despreocupada vida nas grandes cortes de Paris ou Viena.

   O estilo colorido e galante predomina principalmente na decoração do interior de igrejas, palácios e teatros, mas também produz obras inquietantes na pintura e na escultura. Por outro lado, o refinado desenho de móveis, baixelas, cristais, e tudo o mais que se relacionasse com o conforto doméstico, que nessa época começa a ser um tanto comum para a burguesia e nobreza, deram lugar ao conceito moderno do que hoje em dia conhecemos como desenho industrial.

PINTURA ROCOCÓ

Jean Honoré Fragonard 1732-1806,
The Swing 1767 - 1768 81x64cm
A pintura rococó aproveita os recursos do barroco, liberando-os de sua pesada dramaticidade por meio da leveza do traço e da suavidade da cor. O homem do rococó é um cortesão, amante da boa vida e da natureza. Vive na pompa do palácio, passa o dia em seus jardins e se faz retratar tanto luxuosamente trajado nos salões de espelhos e mármores quanto em meio a primorosas paisagens bucólicas, vestido de pastorzinho.

As cores preferidas são as claras. Desaparecem os intensos vermelhos e turquesa do barroco, e a tela se enche de azuis, amarelos pálidos, verdes e rosa. As pinceladas são rápidas e suaves, movediças. A elegância se sobrepõe ao realismo. As texturas se aperfeiçoam, bem como os brilhos. Existe uma obsessão muito particular pelas sedas e rendas que envolvem as figuras. Os retratos de Nattier e as cenas galantes de Fragonard são as obras mais representativas desse estilo.

O material preferido para obter o efeito aveludado das sedas e dos brocados, a transparência das gazes e o esfumado das perucas brancas são os tons pastel. Esses pigmentos de cores diferentes, prensados na forma de pequenos bastões, ao serem aplicados sobre uma superfície rugosa vão se desfazendo e é preciso fixá-los com um líquido especial. Sem sombra de dúvida, é nesse período que a técnica do pastel atinge seu ponto máximo de excelência.

ESCULTURA ROCOCO

Ignaz Günther, (1725-1775)
Os escultores do rococó abandonam totalmente as linhas do barroco. Suas esculturas são de tamanho menor. Embora usem o mármore, preferem o gesso e a madeira, que aceitam cores suaves. Os motivos são escolhidos em função da decoração. Nas igrejas da Baviera surge o teatro sacro. Altares com iluminação a partir do fundo, decorados com cenários carregados de anjos, folhas e flores, são a referência ideal para cenas religiosas de uma inegável atmosfera de ópera.

Sempre se procura o efeito de uma discreta elegância, quando não de rebuscada aparência, e os temas são muitas vezes totalmente pagãos. As colunas se retorcem e afinam, lembrando uma grinalda. Os mármores já não se diferenciam dos trabalhos de madeira, que também são pintados como se fossem pedras calcárias. Dourados e prateados se fundem nos ornatos de folhas e conchas. É o exagero da assimetria no afã da ocupação total do espaço.

Deve-se destacar também que é nessa época que surge com um vigor inusitado a indústria da escultura de porcelana na Europa, material trazido do Extremo Oriente, na esteira do exotismo tão em voga nessa época. Esse delicado material era ideal para a época, e imediatamente surgiram oficinas magistrais nessa técnica, em cidades da Itália, França, Dinamarca e Alemanha.

ARQUITETURA ROCOCÓ

A arquitetura rococó adquiriu importância principalmente no sul da Alemanha e na França. Suas principais características são uma exagerada tendência para a decoração carregada, tanto nas fachadas quanto nos interiores. As cúpulas das igrejas, menores que as das barrocas, multiplicam-se. As paredes ficam mais claras, com tons pastel e o branco. Guarnições douradas de ramos e flores, povoadas de anjinhos, contornam janelas ovais, servindo para quebrar a rigidez das paredes.

Galeria dos Espelhos, Palácio de Versalhes, França
O mesmo acontecia com a arquitetura palaciana. A expressão máxima dessa tendência são os pequenos pavilhões e abrigos de caça dos jardins. Construídas para o lazer dos membros da corte, essas edificações, decoradas com molduras em forma de argolas e folhas transmitiam uma atmosfera de mundo ideal. Para completar essa imagem dissimulada, surgiam no teto, imitando o céu, cenas bucólicas em tons pastel.


KaisersaaldoPalaacuteciodeWurzburg
Projeto de Joha Michael -  Interior da Igreja da Abadia Beneditina de Ottobeuren

O BARROCO MINEIRO

O renascimento do barroco

Para alguns, esse foi o gênero que formou e define, até hoje, a cultura brasileira.
Por Ricardo Arnt, Lucia Helena de Oliveira, de Ouro Preto,
e Fernando Valeika de Barros, de Lisboa


Aleijadinho - Profeta em Congonhas do Campo
Há 300 anos, em junho de 1698, quando o acampamento de Ouro Preto foi fundado no alto de um morro perdido na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, nada prenunciava seu glorioso futuro. O clima era sombrio, esmagado por muralhas de montanhas, e o arraial equilibrava-se sobre solo escorregadio. "A primeira coisa que se fazia ao criar uma cidade", disse à SUPER o historiador português Vitor Serrão, professor de História da Arte na Universidade de Lisboa, "era construir uma capela. A maior preocupação era não faltar igreja para as festas santas como o Natal."

E foi de capela em capela, cada vez mais próspero com a descoberta de vários depósitos de ouro nas imediações, que, em 1711, o povoado virou a Vila Rica do Ouro Preto, a capital do barroco - o estilo artístico exuberante que dominou a arquitetura, a pintura, a escultura, a literatura, a música, o mobilário, a ourivesaria e a mentalidade do país durante 100 anos. Tanto tempo que, para muitos historiadores, o barroco não só fundou a cultura brasileira, como continua a influenciá-la até hoje - apesar de ser o avesso das modas minimalistas pós-modernas. A idéia é apaixonante. E controversa, como você vai ver nesta reportagem.

O certo é que o barroco brasileiro está em alta. Cento e vinte mil pessoas já visitaram em São Paulo a exposição O Universo Mágico do Barroco, que reúne, pela primeira vez, 400 peças deslumbrantes do período colonial. O sucesso é tanto que a mostra foi prorrogada até 18 de outubro. Em maio, a Christie's de Londres, a mais famosa casa de leilões do mundo, vendeu, pelo preço recorde de 420 000 dólares, uma imagem de Nossa Senhora das Dores esculpida por Aleijadinho, o principal artista brasileiro do período. Quer dizer, se alguma vez o barroco esteve em declínio por aqui, ele agora está renascendo.
Artistas brasileiros reelaboram, a seu gosto, o barroco português. As cores deste teto da Igreja de São Franscisco de Assis, em Ouro Preto, pintado por Manoel da Costa Ataíde (1762-1830), são muito mais vivas e quentes do que as encontradas em Portugal.

Os símbolos da fé revigorada
Ofuscar os sentidos. Afirmar o esplendor divino. Conquistar a alma e a imaginação com a exuberância da fé. Maravilhar. Extasiar. Ao recomendar novas diretrizes estéticas à Arte, os cardeais reunidos na última sessão do 19º Concílio Ecumênico da Igreja Católica Romana, em 1563, na cidade de Trento, na Itália, não estavam brincando. O Vaticano precisava reagir à expansão da Reforma protestante na Europa, iniciada por Lutero, na Alemanha, em 1517. O barroco - termo derivado da palavra espanhola barueco, que significa pérola irregular - foi um dos principais instrumentos de propaganda do movimento da Contra-Reforma. Não por acaso, um dos primeiros edifícios com decoração nesse estilo foi a Igreja de Jesus, em Roma, de 1575, construída para sediar a Companhia de Jesus, a ordem dos jesuítas, fundada para combater o protestantismo.

"A Igreja queria parecer moderna e não ultrapassada", explicou à SUPER o historiador Carlos José Aparecido, da Fundação do Museu de Arte Sacra de Ouro Preto, em Minas Gerais. "A pompa e a exuberância barrocas quebravam a linearidade e a rigidez dos estilos vigentes, o renascentista, harmônico e equilibrado, e o maneirista, superficial e artificioso. E impressionavam." Daí o seu apego à curva, ao movimento, ao drama, à decoração feérica e, paradoxalmente - em se tratando de uma arte religiosa -, à sensualidade.

O barroco foi uma reafirmação do poder da fé. Diante do protestantismo, que pregava austeridade e rigidez, o catolicismo reagiu alardeando a exaltação mística e o delírio dos sentidos. A vitória da emoção sobre a razão.

Atraso luso
O Concílio de Trento e suas idéias estéticas ajudaram os reis católicos a impor seu poder sobre os nobres locais e a consolidar as monarquias absolutas. Por isso, no século XVII, o período barroco por excelência na Europa, surgiram palácios monumentais e hiperdecorados, como o de Versailles (1655), na França, reafirmando a grandeza do Estado.

Mas Portugal já estava em decadência quando o barroco surgiu. Perdera importantes entrepostos comerciais e, em 1580, o próprio rei, d. Sebastião, morria em batalha, no Marrocos, sem deixar herdeiros. A tragédia redundou em outra, maior, quando as complicações dinásticas levaram à anexação das terras lusitanas pela Espanha. "Esse período, de 1580 a 1640", define o historiador Nicolau Sevcenko, professor de História Contemporânea na Universidade de São Paulo, "constitui o maior pesadelo da história portuguesa."

A perda de poder político e financeiro refletiu-se na cultura. É a época da "arte chã", que, na Arquitetura, produziu igrejas singelas, com torres quase como guaritas e interiores ornamentados em madeira talhada. "Uma vez que não havia mármore ou pedras nobres, como nos países ricos", explica Vitor Serrão, "a solução foi trabalhar com azulejo, madeira e painéis pintados". Só em 1640, com a reconquista da independência, o barroco português deslanchou, com quase um século de atraso.

Os três ciclos do barroco colonial
No Brasil, a ascensão do novo gênero artístico acompanhou a descoberta do ouro em Minas - a primeira corrida do ouro do Ocidente. Em cinqüenta anos, 600 000 portugueses emigraram para cá. Desses, calcula o historiador Jaelson Britan Trindade, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), de São Paulo, "pelo menos 800 eram artistas".

No final do século XVII, descontados os índios, a população brasileira de origem européia contava 40 000 habitantes. No fim do século XVIII, pulou para 1,5 milhão. Nas cidades litorâneas, sob maior influência da metrópole, o barroco foi mais português. Já no interior de Minas, isolado pela distância e pela precariedade das comunicações, ganharia cada vez mais características próprias.

Um século de evolução
Quando surgiu, em Salvador e em Recife, o estilo mudou o interior das igrejas, não o exterior. Nesse período inaugural, chamado de nacional português, as fachadas e plantas continuam retilíneas, mas, por dentro, os templos viraram suntuosas "cavernas douradas", com paredes e tetos inteiramente revestidos de madeira esculpida em alto ou baixo-relevo (a talha), e pinturas encaixadas em molduras (os caixotões). Os painéis que ficam atrás e acima do altar (os retábulos) apresentam colunas torcidas (coluna salomônica) e decoração profusa. É o caso da Capela Dourada (1695), em Recife, da Igreja de São Francisco de Assis (1703), em Salvador, e da capela de Nossa Senhora do Ó, em Sabará (1719), Minas Gerais.

A partir de 1730, nota-se uma mudança. É o período joanino, marcado pela gosto italiano do rei português, d. João V. As estátuas se integram à madeira dos retábulos e os caixotões desaparecem, substituídos por pinturas ilusionistas (que provocam ilusão de óptica), recobrindo o teto. A arquitetura adota linhas curvas, naves alongadas (o corpo da igreja é chamado de nave) e torres circulares, como nas igrejas de Nossa Senhora da Conceição da Praia (1758), em Salvador, Nossa Senhora do Pilar (1734) e Nossa Senhora do Rosário (1750), ambas em Ouro Preto.

Outras mudanças cristalizam-se a partir de 1760, com o ciclo rococó. Aí, as fachadas tornam-se mais leves e audaciosas, com curvas e contra-curvas, elegantes torres redondas e portadas com relevo de pedra-sabão. Os ambientes são claros e arejados, e a luz natural enfatiza a ornamentação sobre fundos caiados de branco. Os templos projetados por Aleijadinho, como a Igreja de Nossa Senhora do Carmo (1766), em Ouro Preto, e a de São Francisco de Assis (1774), em São João del Rey, são obras-primas da época. "O interior dessas igrejas", diz Myriam Ribeiro de Oliveira, professora de História da Arte.

Período nacional português (1700-1730)
Período joanino (1730-1760)
Período rococó (1760-1800)

As primeiras marcas da identidade nacional  

O ímã do ouro tornou Minas a capitania mais populosa do Brasil. De 1711 a 1730, começando por Ouro Preto, brotaram nove vilas na Serra do Espinhaço - de São João Del Rey, no sul, a Sabará, no norte. No fim do século XVIII, a região já tinha 500 000 habitantes. Para se ter uma idéia, em 1762, o Rio tinha apenas 30 000 habitantes; Salvador, em 1797, 50 000; e Vila Rica, 100 000. O ouro criou um mercado interno para o gado do Sul, fumo e açúcar do Nordeste e escravos do Rio. Com a abertura do Caminho Novo das Gerais, em 1715, os tropeiros passaram a viajar entre o Rio e Vila Rica em "apenas" doze dias.

A civilização que levou o barroco brasileiro ao apogeu era aventureira e precária. A Coroa confiscava um quinto do ouro extraído e, por isso, o contrabando era crônico. Os costumes eram promíscuos e as leis, pouco respeitadas. A falta de mulheres tornava a prostituição rendosa. Até os padres envolviam-se em escândalos sexuais.

Para controlar a expansão da Igreja nessa região tão rica, a Coroa proibiu a instalação das Ordens Primeiras (de frades e monges) e Segundas (de freiras), em 1738. "Em conseqüência", explica Ana Maria Monteiro de Carvalho, professora de História da Arte na Universidade Católica do Rio, "proliferaram as Ordens Terceiras, as Irmandades e as Confrarias que congregavam leigos. Foi a devoção laica que encheu Minas de obras barrocas."

Cada corporação de ofício tinha a sua Ordem. Havia irmandades de elite e populares. A Ordem Terceira de São Franciso de Assis de Vila Rica, por exemplo, proibia "mulatos, negros, judeus, mouros e heréticos ou seus descendentes até a quarta geração". A Ordem Terceira do Rosário dos Pretos congregava escravos. Cada uma tinha seu santo, suas festas e construía sua igreja exclusiva, competindo com as outras em prestígio. Para o devoto, o prêmio era ser enterrado pela confraria - garantindo o céu após a morte.

Síntese original
Impulsionado pelo ouro e pela multiplicação de igrejas, o barroco português aos poucos adquiriu traços brasileiros. O azulejo, que não suportava a subida da serra no lombo das mulas, foi trocado por painéis pintados. A pedra-sabão substituiu o mármore e a pedra de lioz. As igrejas e capelas tornaram-se menores, já que eram construídas para atender a uma só confraria.

Aos poucos, na medida em que tiveram filhos com escravas, os artistas portugueses repassaram as técnicas a artesãos mestiços. Foi o mestre-de-obras Manuel Francisco Lisboa, branco e português, que formou Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, seu filho (filho de um homem branco português e de uma escrava negra).

Em 1790, os artistas mulatos e livres já predominavam nos cargos de "oficial" e de "mestre". A sintonia com a terra e a cultura artística local filtrava a reinterpretação dos modelos europeus. As paredes curvas se misturaram às retas. As cores avivaram-se com a luz dos trópicos. Os santos ganharam feições amulatadas. E os anjinhos morenos receberam viçosas perucas loiras.

Sotaque brasileiro, gramática portuguesa
Formalmente, o barroco termina em 1816, com a chegada da Missão Artística Francesa e do estilo neoclássico, em voga na Europa, ao Rio. Mas, para muitos, a influência barroca não acabou aí. "O Brasil nasceu sob signo barroco", disse à SUPER o historiador Nicolau Sevcenko, da Universidade de São Paulo. "A fisionomia e alma brasileiras foram compostas por esse sopro místico. Ele não foi um estilo passageiro, mas a substância básica da síntese cultural do país." Para Sevcenko, há marcas "latentemente barrocas" na identidade brasileira, no catolicismo popular em especial, como "extremos de fé, ilusão de grandeza, exaltação dos sentidos, êxtase de festa, pendor pelo monumental, convivência com disparidades e compulsão de esperança".

Essa associação do barroco à identidade nacional surgiu há cinqüenta anos com escritores como Olavo Bilac (1865-1918) e Mário de Andrade (1893-1945). Adotada pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico, fundado em 1937, a tese inspirou pesquisadores como Germain Bazin (1901-1990), Lúcio Costa (1902-1998) e o diretor da Pinacoteca Municipal de São Paulo, Emanoel Araújo, que defende "a existência de uma estética própria do barroco brasileiro, a despeito de raízes e mestres portugueses". Para Araújo, o barroco brasileiro carrega "a tropicalidade, a permissividade e a sensualidade da miscigenação das culturas. Aqui, as ordens religiosas incorporaram o negro e o índio", ressalta. "Era a Igreja que promovia a festa negra do Rei do Congo."

O regional e o universal
Mas se formou a identidade brasileira, o estilo também formou a dos outros países latino-americanos, que reinterpretaram o barroco espanhol. "Lá, muito mais", ressalta Myriam Ribeiro de Oliveira, "pois as civilizações pré-colombianas da América espanhola tinham mais tradição cultural e poder de reelaboração do que as culturas indígenas brasileiras. Na verdade, o barroco brasileiro é o mais europeu da América. No México, no Peru e na Bolívia há mais sincretismo do que aqui." Para a especialista, a genialidade do Aleijadinho não caiu do céu. "As fontes e modelos que ele usou chegavam de gravuras e livros vindos de Lisboa, Paris, Antuérpia e Roma. Ele conjugava muitas influências." De Lisboa, Vitor Serrão reitera: "Por mais genial que a talha do Aleijadinho seja, a gramática era portuguesa".

Há controvérsia, também, sobre a idéia de nacionalidade. Para o pesquisador Jorge Coli, professor de História da Arte e da Cultura na Universidade Estadual de Campinas, "a identidade é um processo: com o tempo, o que parecia essencial revela-se aparente". Coli desconfia da herança "genética" do barroco. Para ele, "o barroco foi universal, com muitos sotaques e acentos regionais".

Ainda parece faltar uma análise que ilumine a fusão da influência universal com a local, como sugere Myriam Ribeiro: "Falta uma síntese que una a tradição européia das igrejas mineiras com a sua incontestável originalidade". Só assim será possível entender o sorriso maroto do anjinho mulato com peruca loira.

Para saber mais
O Universo Mágico do Barroco Brasileiro. Emanoel Araújo (org.). São Paulo, Serviço Social da Indústria, 1998.
A Arquitetura Religiosa Barroca no Brasil. Germain Bazin. Rio de Janeiro, Record, 1983.
Este texto pode ser lido de maneira completa no site da disciplina, contando com imagens ilustrativas, desenhos, esquemas, quadros explicativos, exemplos visuais e informações visuais e gráficas que ajudam e melhoram muito o entendimento do texto.

OBS: O texto foi extraído de reportagem veiculada na revista Super Interessante.


“Lembre-se do seu Criador nos dias da sua juventude, antes que venham os dias difíceis e se aproximem os anos que você dirá: Não tenho satisfação neles” EC 12:01